quinta-feira, janeiro 29, 2009

Educação cinematográfica


Quando se passa a ler e reler um livro que teve papel importante em três fases de sua vida, como é Solo de Clarineta, a autobiografia de Erico Veríssimo, as palavras e as ideias começam a se descolar do texto, como se fossem adesivos multicoloridos, que podemos colar noutras ideias e refletir inúmeras vezes sobre elas.
Como comentei noutro post, a cada leitura o livro é o mesmo, mas o leitor é que muda. Em 1982, eu era um leitor ingênuo, no sentido de ler sem ter o conhecimento crítico e teórico; em 2006, com alguns anos de leituras variadas, passei a ser um leitor se especializando, cursando pós-graduação em História do Rio Grande do Sul: sociedade, políca e cultura (FURG); em 2007/2009, um leitor crítico e teórico, fazendo mestrado em Letras, área: História da Literatura (FURG).
A cada leitura, o "Código Veríssimo" passei a decifrar, primeiro com o olhar do jovem que descobre um autor que o encanta e o inspira; depois, como alguém que analisa o livro pelo enfoque histórico, por fim, mas não será, com certeza, a última nem a definitiva leitura, já lendo as memórias de Erico, com o prisma literário, unindo o imaginário, o mito e o devaneio...
O "código Veríssimo", é, evidentemente, uma alusão a dois outros códigos famosos: o Código da Bíblia, suposto criptograma que estaria escondido nas Escrituras Sagradas (descoberto graças ao usa da matemática e de poderosos computadores) e o Código Da Vinci, de Dan Brown, best seller que dispensa apresentações. Li os três "códigos", e adorei a ambos...
Embora polêmicos, tanto o da Bíblia como o de Da Vinci, por serem bem escritos, provocam no leitor diversas reflexões. E nos críticos, duras farpas. O Código Veríssimo, ou a formar de contar a história da própria vida, de uma forma especial e particular, é um tipo de código narrativo que todos nós temos... Entre o dito, o escrito e o subentendido, pela análise do discurso de alguém é possível ler nas entrelinhas, ou como diria Gaston Bachelard, entre o "nominado" e o "inominável" uma outra história de claros e escuros, de vazios e preenchimentos... Mas isso são coisas que não pretendo adiantar neste blog, antes de concluir a dissertação por motivos óbvios: o caráter da inediticidade da pesquisa, da ética na não-divulgação antes da devida apresentação e da ainda incipiente especulação aguardando comprovação, para futura defesa...
Por enquanto, para fins meramente tecnológicos e educacionais, além de artísticos e culturais (objetivos desse blog), fico com a questão levantada por Erico Veríssimo, em sua autobiografia, publicada em 1973 (há 36 anos atrás! E como era outro o nosso mundo em 1973!) :

“Os filmes americanos nos conquistaram com facilidade pela rapidez de suas cenas, pelas suas novidades em matéria de mobilidade da câmara cinematográfica (não se tratava mais de teatro filmado) e pela preferência pelos enredos novelescos”, p.108.

Técnicas que o jovem iria incorporar à sua obra literária aos poucos, de forma consciente. Nessa sua retrospectiva de vida, Veríssimo declara:

“Olhando para trás, desta distância no tempo, e examinando a minha 'educação cinematográfica', concluo que foi lá por 1915 que começou o nosso – pelo menos o meu – processo de americanização naquela escola que era o Biógrafo Ideal”, p.110.

Biógrafo Ideal era o nome do cinema de Cruz Alta, onde nasceu Erico. Depois dessa citação, Erico segue por mais algumas páginas, comentando filmes, atores, fazendo reflexões...

“Entrei nesta digressão um tanto longa sobre os filmes de cinema americanos porque eles foram em grande parte responsáveis pelos meus amores de menino, adolescente e homem feito pelos Estados Unidos, bem como por minhas desilusões com relação a esse país, as quais se foram acentuando principalmente depois da Segunda Grande Guerra, quando comecei a conhecê-lo mais de perto”, p.113.

Relendo esses fragmentos, passei também a dar-me conta de que Erico e meu pai, e toda uma geração nascida do início a metade do século XX, de fato, tiveram uma educação cinematográfica; já na segunda metade do século passado, a outra geração (a qual me incluo), passou a ser "educada" pela televisão, a partir dos anos 50, e, em especial, nos anos 1970, quando iniciei minha educação televisiva. A geração do século XXI, é "educada" pela internet, como meu filho e toda a juventude, que adora estar mais conectada ao ciberespaço do que ao mundo real...
Fico às vezes pensando: Qual será a nova mídia a ser criada, para a geração pós-2050?
E nesse processo de substituição de uma por outra, vemos que o cinema, enquanto sala de espetáculos, com tela grande, onde pessoas se reuniam para ver im filme, comendo pipoca e tomando refrigerante é algo em fase de extinção, até pelo fato de que a violência espantou o público desses ambientes, ficando tais espaços restritos agora a servirem para abrigar igrejas.
Meu pai, quando garoto, atuou como ajudante de projecionista, no pequeno cinema do Seu Cataldo, em São José do Norte - RS - Brasil, lembrando-me em parte o belo filme Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore. Quando, algum tempo atrás, dei a ele de presente um DVD deste filme, fiz meu pai voltar no tempo...
O cinema e a televisão têm um direcionamento, por conta dos interesses públicos e privados dos grandes estúdios e das redes de TV, respectivamente, que possuem uma linha editorial-empresarial-político-ideológica... A internet, que parece ser um espaço livre, também tem seus mecanismos de controle e direcionamento, embora nem todos deem-se conta disso.
Recentemente, o Google, que é o maior banco de dados no mundo digital foi acusado de ter uma espécie de parceria com a Wikipédia, pois mais de 70% das consultas feitas a ele remetiam a ela... O que não deixa de ser curioso mesmo, pois a educação, em sentido amplo, hoje utiliza-se por demais desses dois recursos, digamos, siameses, Buscador e Enciclopédia Virtual. O que, para "teóricos da conspiração" - que não é o meu caso, pois sou, quando muito, nas horas vagas, um escritor de ficção -, pode-se criar um mundo alternativo... E, segundo pesquisas, já destacadas no LV e outros blos, para a maioria dos jovens pesquisados, o que não está no Google não existe! Sério! Pelo sim, pelo não, sempre é bom recorrer a mais de uma fonte de dados, quando se tratar de pesquisa escolar ou acadêmica. A digital tem seu valor, mas não podemos menosprezar o livro impresso, a revista, o jornal, o relato oral, etc.
Também prefiro, ao falar de Educação Cinematográfica, lembrar e divulgar um projeto educacional, promovido pelo blog Caldeirão de Ideias, blog que recentemente foi premiado pelo Best Blogs Brasil, como o melhor blog corporativo do país, por eleição do público internauta. O referido projeto chama-se Cinema no Caldeirão, e consiste em publicar, todos os sábados, no blog, a indicação de um filme, com resenha, imagens, vídeo e sugestões de como utilizá-lo em sala de aula ou sala de vídeo pelos professores com seus alunos. Esse tipo de "educação cinematográfica", pela sua criatividade, originalidade e praticidade educacional, vai além de apenas passar um filme, com enfoque meramente recreativo, mas sim, eminentemente pedagógico. Uma saudável iniciativa que, quem sabe, agradaria muito a Erico Verissimo e a sua geração; bem como agradar a nossa e a atual geração...
São iniciativas como essa do Caldeirão e doutros educadores que promovem o verdadeiro intercâmbio entre a teoria e a prática, entre o artístico e o cultural, entre o pedagógico e o social. Viva, então, a Educação Cinematográfica e os bons filmes que promovem essa reflexão...

Observação: Imagem acima, extraída da internet, do endereço abaixo
http://euseimaisesqueci.blogspot.com

5 Comments:

Blogger Jaime A. said...

Uma grande crítica!
Um grande abraço.
Jaime A.

21:11  
Blogger Robson Freire said...

Olá Amigo Zé

Voltei depois de um descanso de 6 dias totalmente off apos a maratona que foi o Best Blogs Brasil.

O cinema tem essa magia de encantar e empolgar as pessoas, além de nos levar por tempos distantes, vidas passadas, eras futuras, ser homem, ser mulher, voltar a ser criança enfim o cinema nos permite sonhar.

O projeto Cinema no Caldeirão tem indo de vento em popa, mas sempre aguardando a contribuição dos amigos com suas indicações, resenhas e aplicações pedagógicas.

Essa Educação Cinematográfica é importante para todos os segmentos educacionais, ver um bom filme nacional, um bom documentário ou ate um programa de TV deve ser uma coisa contextualizada e informativa, não apenas olhar (ou espiar) como se faz nos BBB da vida.

Obrigado pela citação e Parabéns pela postagem. Falei de você lá no Caldeirão de Ideias.

Abraços do amigo (agora premiado igual palito de picolé)

00:14  
Blogger José Antonio Klaes Roig said...

oi, Jaime, grato pelo visita e elogio. Um abração. E no vemos pelo blog GPS - Global Poetic Society.

14:16  
Blogger José Antonio Klaes Roig said...

Oi, Robson. Se é, educação cinematográfica é um processo tb de ensino e aprenidzagem pois há filmes, como vc indica que podem ser trabalhados na otica pedagógica, de forma incrível.
Vo ontem um belo filme que mescla literatura, fantasia, reencontro familiar, que chama-se As crônicas de Spiderwick, muito legal... E sempre que um livro é quase um personagem central da trama, isso me encanta... Tinha um outro pra indicar e me esqueci... Vi por conta de tua indicação Ensinando a Viver, e adorei o menino que se achava marciano... Eu, qdo menino, já achei q era de Vulcano, por conta das orelhas pontudas, do jeito sério e de adorar o seriado Star Trek e o Sr. Spock. kkkk Tá na minha lista Escritores da Liberdade, tb pelo Caldeirão indicado e outros tantos... Pena naum se ter tempo pra ler todos os livros q queremos e ver todos os filmes q desejamos... Um abração, migo, e mais uma vez, parabéns pela merecida premiação do Caldeirãooo! Aqui chuva forte e a cidade vizinha, Pelotas, ficou embaixo d'água, esse verão o aquecimento global mostrou suas garras, e se não mudarem o modo de vida, os Grandes, pouca coisa irá mudar... Obama tá promovendo muitas mudanças, ainda superficiais , que espero q naum sejam peças de marketin, como um ex-presidente nossso... Qdo ele disse (Barack, num aviso aos terroristas, q suas alões naum mudariam o jeito de ser do americano, arrepiei, pois é justamente esse jeio de ser q causa antipatia no mundo afora... e fica conflitante com seu discuros q dizia que teria que haver mudanças... mudar pra que nada mude, naum basta). Bom, torço pra que ele seja algo novo mesmo e naum apenas novidade com prazo de validade determinado... Mas se ele um dia começara fazer cooper e usar camisetas com slogans, xiiiiii, ai sim... icarei com minhas barbas de molho, pois esse filme, todos nós já conhecemos e reprovamos... Risos. Dê-mos tempo ao tempo... Um abração e bom findi, amigão...

14:27  
Blogger Taibai Li said...

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21:49  

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