terça-feira, março 04, 2008

A geração MSN e O Pai Invisível

Retornei das férias ontem. Mas o que menos tive foi folga. Não viajei. Fiquei na cidade do Rio Grande, onde moro há 25 anos, e eventualmente fui para a praia do Mar Grosso, no município vizinho de São José do Norte, onde morei até os 18 anos, e onde residem meus pais. Aproveitei as férias pra pintar a casa, junto com a esposa, a procurar nova escola/maternal pra nosso filho de 3 anos, já que a anterior fechou. E nas horas "vagas", dediquei-me a elaboração de meu projeto de dissertação de mestrado em Letras (área de História da Literatura), além de 3 ensaios, relativos às 3 disciplinas do 2º semestre. Concluí nesse domingo o segundo ensaio. Essa semana, além de voltar ao trabalho em dois turnos, tenho que escrever o terceiro ensaio literário, revisar e imprimir todos, para entrega no prazo: dia 10/3. Mas nesse meio tempo, entre leituras obrigatórias (não no sentido de forçada, já que adoro literatura), fiz leituras descompromissadas, comentando algumas nesse blog. E pra relaxar das leituras teóricas, leio livros que me chamam a atenção, mas como terapia. Foi o caso do livro O Pai Invisível, de Kledir Ramil, que iniciei a leitura no domingo, e que reproduzo abaixo um fragmento, às páginas 19-20, do referido livro, que retrata muito o cotidiano entre pais e filhos, e o eterno choque de gerações. Sempre admirei Kledir, desde o grupo Os Almôndegas, quando eu era garoto, até sua participação na dupla Kleiton & Kledir, e agora como escritor. Uma leitura agradável, descontraída, criativa e divertida. Uma bela indicação para pais e filhos, professores e alunos nesse retorno às aulas. Vejam abaixo o fragmento em questão:

"Cada geração que chega precisa inventar uma língua nova. Por um lado, é uma maneira de identificação da tribo. Por outro, eles realmente pensam diferente de nós e aí o vocabulário mais tradicional já não é suficiente pra expressar o monte de novidades e informações que circula em suas cabecinhas. Por isso procuro sempre conversar com meus filhos, pra manter aberto o canal de comunicação. Falo pra eles 'tipo assim, tipo assim, 'não sei quê, não sei que lá'... Aí eles mais ou menos entendem o que eu tô querendo dizer. Faço um esforço, senão daqui a pouco vamos precisar de tradução simultânea dentro de casa.
Para piorar ainda mais, inventaram o MSN, essa praga da internet onde eles ficam horas e horas escrevendo abobrinhas uns pros outros. Em código secreto.
O mais difícil para nós, que fomos criados lendo Machado de Assis - e pelo menos uma vez na vida tivemos que estudar o Eça de Queiroz -, é decifrar essa língua feita de símbolos e abreviações com a qual eles se comunicam via computador. A cada novidade que eu consigo descobrir, fico me sentindo como o Champollion decifrando a Pedra de Roseta do antigo Egito".


Ano passado, quando fui patrono da XVI Feira do Livro de São José do Norte - Rio Grande do Sul - Brasil, uma noite, conversando com minha amiga Aline, acadêmica de Biblioteconomia, que tem idade para ser minha filha, conversando sobre livros e escritores, acabei falando no meio de uma frase a expressão "bagulho", uma gíria. Aline deu uma risada e disse que não acreditava ter ouvido essa palavra de minha boca, por eu ser um escritor, que escrevia artigos de uma forma toda certinha e tudo mais. Pois é, eu e Aline, como outros tantos amigos que tenho, no mundo real e no virtual, temos na linguagem uma forma de expressão, meio de tribo. Uma coisa é a escrita culta, outra o linguajar coloquial. Devido ao contato com jovens, de alunos a amigos, incorporo ao natural certas gírias, e quando estou nas raras vezes conectado ao MSN, incorporo também siglas, abreviações e tudo mais. Como Kledir falou "temos que manter aberto o canal de comunicação" para entender o outro lado, e não apenas na fala, mas na forma de interação. O que me facilita trabalhar com jovens - e saber me comunicar com as diversas tribos -, é continuar sendo um jovem de espírito, apesar do tempo que passa. Minhas bandas preferidas, além das de meu tempo de juventude, são também muitas das que a geração MSN gosta, e não acho isso nada demais, ou melhor, D+. Risos.
Pais e professores que usam o diálogo para se comunicar com seus filhos e alunos, sabem como a resposta e a interação fluem melhor, do que apenas normas e regras inflexíveis dentro de casa ou em sala de aula. Se não há como fazer os jovens voltarem ao nosso tempo e nosso uso e costumes, podemos viajar ao seu mundo, e com base em nossa experiência de vida estabelecer formas de convívio mútuas, respeitando a individualidade.
Assim sendo, indico o livro O Pai Invisível, de Kledir Ramil, como leitura "obrigatória" a pais e filhos, professores e alunos; os adultos para recordarem coisas de quando eram jovens, e os jovens para conhecerem o mundo que viveram seus pais. Se não entendemos o outro lado, não conhecemos o seu significado.
Observação: A imagem acima, capa do livro indicado acima, extraída do endereço
www.brazilianvoice.com/mostranews.php?id=2045.

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