segunda-feira, setembro 29, 2008

Por uma filosofia da aprendizagem contra a doce arrogância da juventude


Recebi dias atrás um email de uma amiga confiável, Ewaldira, contendo uma informação que precisei checar a autoria e a procedência, pois me pareceu, como tanta coisa que vaga (passada e repassada) pelo ciberespaço, matéria apócrifa e descabida. Sempre que isso acontece, se não confirmo a fonte, deleto sem culpa nem arrependimento a mensagem.
Pasmo, fiquei ao ver e ler o texto Prontos para o século XIX, assinado por duas jornalistas sérias e publicada em revista de grande circulação no país.
Impressa na página sobre Educação, já me interessou ao natural, e como tema para a reflexão abordando a Ideologia, curiosamente para mim, um homem de centro-esquerda, mestrando em Letras, o referido texto permitiu-me fazer uma pequena análise do discurso das autoras, extremamente vinculado à ideologia da revista.
Embora, o artigo seja bem escrito, o mesmo é pautado por uma dura crítica às esquerdas em geral, desde os simples professores de escolas públicas e sua metodologia até ícones como Marx, Che Guevara e Paulo Freire e suas supostas doutrinas...
Ainda que criticando o suposto pensamento totalizador de regimes de esquerda, esqueceram as autoras de avaliar a própria crise da direita, e do capitalismo, que só se mantém, como em qualquer regime pelo mundo afora, "privatizando os lucros e socializando os prejuízos", frase essa cunhada por político brasileiro, que não me recordo o nome. O que são hoje os EUA, em sua crise de ética e de finanças, mantendo-se ainda como superprepotência, aliás, superpotência, graças às invasões aos países, num claro desrespeito as deliberações das Nações Unidas e ao princípio da autodeterminação dos povos? Que modelo eles - não o povo americano, mas seus governantes -, legaram à história da Humanidade, senão a do Grande Irmão, que se provalece de seu tamanho e força contra os países menores? Por que não fazem o mesmo que fizeram com Vietnam, Afeganistão, Iraque, entre outros primos pobres, com os primos ricos e fortões como China, Rússia, Coréia do Norte? Medo do arsenal nuclear? Pois é, seja na escola pública, seja na escola da vida, sempre o Valentão só age como tal, quando enfrenta um fracote e/ou medroso... O que é uma injustiça.
Certa feita, escrevi um artigo dizendo que se os EUA tivessem sido colonizados pelos EUA, ao invés da Inglaterra, os EUA não seriam hoje os EUA. Confuso? Nem tanto. Vejam só, e me digam qual país emergente, sob influência norte-americana, pós-1945, pode ser considerado um país desenvolvido? E me digam a mesma coisa de países sob influência do antigo império britânico, até o final da II Guerra Mundial? Lembro de imediato do próprio EUA, Austrália, Nova Zelândia, Canadá e até Hong Kong, que nem país é... Claro, também tiveram países como Índia e o continente africano, sob influência britânica que foram explorados e assim ficaram até hoje.
Contudo, o trecho que provocou surpresa em muita gente, principalmente em educadores como eu, é esse que reproduzo fragmento abaixo, em tom áspero demais para o meu gosto, de quem se propõe a fazer uma análise contra as ideologias totalizantes e redutoras da importância das pessoas e dos fatos históricos:

"Muitos professores brasileiros se encantam com personagens que em classe mereceriam um tratamento mais crítico, como o guerrilheiro argentino Che Guevara, que na pesquisa aparece com 86% de citações positivas, 14% de neutras e zero, nenhum ponto negativo. Ou idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização. (grifo meu) Entre os professores brasileiros ouvidos na pesquisa, Freire goleia o físico teórico alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da humanidade. Paulo Freire 29 x 6 Einstein. Só isso já seria evidência suficiente de que se está diante de uma distorção gigantesca das prioridades educacionais dos senhores docentes, de uma deformação no espaço-tempo tão poderosa que talvez ajude a explicar o fato de eles viverem no passado".

Dadas as devidas proporções, não se deve comparar pessoas, nem atividades tão diferenciadas como a física (embora Einstein tenha sido matemático) com a educação fundamental (e o ensino em geral, da qual Freire foi um defensor). Se for assim, agindo como Advogado do Diabo, já que minha formação também é jurídica, defendo Freire, que escreveu livros de grande ou relativa importância para muitos educadores, enquanto Einstein criou a teoria da relatividade que pouquíssimso gênios pelo mundo afora compreendem em sua totalidade. Ninguém vai negar a importância de Einstein para a ciência, mas é também inegável o papel libertador de Freire para a educação. A César o que é de César, a Freire o que é de Freire, nem mais nem menos...
Paulo Freire, com livros como A pedagogia do oprimido, entre outros - que nada tem de doutrina, terminologicamente falando, e sim como a tomada de consciência e da liberdade do pensamento, que por opção própria chamo de Filosofia da aprendizagem -, foi e ainda é (pois seu legado não morreu com ele), um educador reconhecido internacionalmente, independente de ideologias. Ainda que em alguns livros Freire se repetisse, a própria educação é um ato de aprendizagem por repetição e erro, repetição e conhecimento. O construtivismo e outras tantas propostas que surgiram de educadores com sua ideologia, foram muitas vezes a resposta a uma educação totalizadora, conservadora, rígida do ponto de vista ideológico de direita. A própria revolução russa, com todos os problemas sabidos, contribuiu para a legislação trabalhista, tirando milhões de trabalhadores do feudalismo e do trabalho semi-escravo, e mesmo ainda hoje, vemos como o capitalismo em si é monopolizante, concentrador, explorador... Como a globalização, mesmo no século XXI, age assim, que nem no século XIX, antes do surgimento do socialismo, "privatizando lucros e socializando prejuízos mundo afora". E ainda assim, mesmo sendo os EUA o berço das maiores empresas multi e transnacionais, não é autosustentável, apesar dos discursos ideológicos da direita banqueira, que controla o mundo (e isso não é nada de teoria da conspiração)... E a crise econômica norte-americana esta aí para provar que mesmo a nação mais poderosa e rica do planeta não está imune ao seu próprio veneno especulativo...
Condenar pessoas, que dedicaram uma vida ao próximo, e contribuiram para educação libertária de si mesmo, é no mínimo uma "doce arrogância da juventude", para não dizer outra coisa. Aos vinte e poucos anos, acreditamos saber tudo sobre tudo, nos dando ao luxo de jogar na cova rasa pessoas que lutaram contra as covas fundas do analfabetismo, da opressão, miséria e falta de solidariedade. Criticar é sempre mais fácil e cômodo. Propor algo é mais complexo!
Eu sou um simpatizante de Paulo Freire, e até de norte-americanos como David Paul Ausubel e Carl Rogers, que me ensinaram, com seu legado e experiência de vida, sobre princípios libertários como a aprendizagem significativa e a flexibilidade cognitiva, que os modelos neoconservadores têm tanta ojeriza...
Posso dizer com certeza que a escola, como a sociedade, adotaram sim muito do discurso freireano, mas que poucos usam seus princípios na prática. A escola discursivamente é democrática, mas na prática ainda é centralizadora, e ai, que culpa tem Freire disso? Posso também - sem leviandade, com base em fatos históricos e não tão-somente ideológicos -, dizer que Marx não pretendia criar uma doutrina ou ideologia nova, mas humanizar às existentes, trazendo em sua obra uma dura crítica ao status quo de sua época e propondo, quando muito, uma nova filosofia para o capital. Assim, também Jesus Cristo, que não pensava em criar uma igreja como instituição, e que o Pedro seria a sua pedra no sentido simbólico e não institucional, em que o tempo e a história subverteram. Assim sendo, sem ser leviano, posso dizer que Marx, se vivo não seria marxista, e que Jesus, ainda seria cristão, mas não creio que católico... Mas isso é apenas uma crítica fraterna a partir de uma autocrítica ideológica.
Por isso, sou ferrenho defensor de uma "filosofia da aprendizagem contra a doce arrogância da juventude" que muitas vezes julga ter todas as respostas sobre tudo, inclusive sobre as perguntas que ainda nem foram feitas...
Portanto, sugiro a leitura na íntegra da matéria abaixo, e façam cada um, de acordo com sua ideologia reinante, uma análise crítica:

Prontos para o século XIX

Em parte, acho o título do referido texto apropriado, só sugerindo um ponto de interrogação ao final do mesmo. Creio que em parte, com a administração Bush pai, filho e spirit du corps e seus equívocos políticos, econômicos, éticos e morais, o mundo como um todo voltou ao século XIX, quando o próprio governo dos EUA anexou grande parte do território mexicano (Arizona, Texas, Novo México, Califórnia, Flórida, etc), graças a chamada "diplomacia do porrete", implantada por Ted Roosevelt, e que no século XXI Bush, como bom aluno de uma ideologia imutável, implementou... Isso é história e não ideologia. Parafraseando Cazuza: "Ideologia, eu quero uma para viver..."
Procurando uma imagem para ilustrar essa postagem, encontrei a acima, e no blog que estava estampada, um fragmento sobre Marx, e vejam que interessante:
Nos «Escritos de Juventude», Marx afirma: «(...) A miséria do trabalhador aumenta com o poder e o volume da sua produção. (...) O trabalhador torna-se uma mercadoria tanto mais barata, quanto maior o número de bens que produz. Com a valorização do mundo das coisas aumenta em proporção directa a desvalorização do mundo dos homens. (...)»
Qualquer semelhança de relatos do século XIX com pessoas e fatos do século XXI, não são mera coincidência... Nem discurso ideologizante... Embora, mesmo o discurso que se diz anti-ideológico traz em si alguma ideologia, ainda que particular ou privada. Se penso, logo existo; penso, faço opções políticas, ainda que não partidárias, pois o ser humano é um ser político, desde o nascimento (quando põe literalmente a boca no mundo!), e que sempre toma partido em prol de algo ou alguém, contra algo ou alguém, mesmo que não pertença a agremiações partidárias. Não me recordo se foi Sócrates, Aristóteles ou Platão (ou Sócrates, Zico e Falcão, risos), quem disse que "toda toda negação traz em si uma afirmação". Na época, meu prof. de sociologia jurídica, no curso de Direito, fez-me ver que quando dizemos: eu não sou A, pressuposto está que eu seja outro, B, C... Se eu digo que não sou canhoto, subentende-se que eu seja destro. Na vida real, eu nasci canhoto, mas minha avó, por desconhecimento e superstição, me forçou a ser destro... Até os 20 anos eu era um homem destro também, politicamente, pois o meu país vivia destro e adestrado... Aos 21 anos, quando entrei pro Direito e comecei a ler, além de juristas, grandes filósofos, educadores e intelectuais de esquerda, voltei a ser canhoto, mas um canhoto apenas ideologicamente, que defende o direito de opinião das pessoas até à morte... inclusive a das ilusões... como a do comunismo, que propunha um mundo igualitário, que como ser humano falho, sei que é utopia, jamais a ser alcançada. O que não me impede de lutar pela justiça social, pela liberdade de expressão, pela solidariedade e pela educação libertária... além das ideologias... Então, se toda negação é uma afirmação velada, negar Paulo Freire é afirmar o que em seu lugar?
Observação: Imagem acima, extraída da internet, do seguinte endereço
www.prof2000.pt/.../Alternativas05/Pg000009.htm

1 Comments:

Blogger Robson Freire said...

Olá Amigo Zé

Sinto mas não vou comentar o que um bando de reacionários que trabalham para uma revista tendenciosa, que publica um monte de lixo, e influencia um monte de textos GENÉRICOS.

Olha que corre o risco de algum politico imbecil e reacionário para inventar um retrocesso educacional.

Vou citar uma parte da entrevista do Paulo Bilkstein : "A segunda dimensão é educacional: precisamos formar pessoas mais rebeldes, mais criativas, mais questionadoras, mais críticas, que duvidem das verdades da mídia e da opinião pública." e mais alem ele fala que "A escola nunca foi pensada como instituição para promover a
democratização do conhecimento, embora nos dê essa impressão. O
objetivo primeiro da escola tem sido o de formar as pessoas para atuar na sociedade, dentro de determinados preceitos. O que mais se aprende na escola, mais do que conteúdos, é a se comportar na sociedade. A escola tradicional concentra-se em ensinar as pessoas a respeitar horários, a ter disciplina, a respeitar o poder e a hierarquia, a ter bom comportamento. E isso é o que educadores como Paulo Freire sempre
questionaram: a estrutura de poder, que faz com que a escola seja uma produtora em série de alunos que absorvem passivamente determinados modelos de comportamento, de obediência.".

Pessoal o que os "professores de ontem", os saudosistas de plantão, viúvas do regime querem é controlar, toler, impor, punir. Querem punir pois foram unidos, querem toler pois foram tolidos. O negócio deles é DECOREBA. Fazer uma aula moderna dá trabalho e eles querem ficar repetindo a mesma aula por 3 décadas no minimo,

Educar é mediar, construir e estar preparado tecnicamente, tecnologicamente e estar pronto a romper e recomeçar todos os dias.Acertos precisam ser feitos e uma avaliação para que sejam avaliados os pontos negativos e alternativas INTELIGENTES para melhorar o que precisa ser melhorado.

Nossa me empolguei... isso é que é "PANO PRA MANGA".

Abraços

21:46  

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