sábado, setembro 20, 2008

A consciência de estar sendo observado



Vejam mais imagens no link abaixo:

Jefferson - o Thomas, ex-presidente norte-americano e não o Roberto, político brasileiro -, no final do século XVIII, disse que "Sempre que você fizer algo, mesmo que ninguém jamais venha a saber, faça como se o mundo estivesse olhando para você."
Hoje, em pleno século XXI, a máxima de Thomas Jefferson, perdeu a sua essência no que tange a postura das pessoas diante do mundo (antes mais solidárias, hoje mais individualizadas), principalmente se estiverem sendo filmadas em programas de TV que simulam a realidade. Atualmente, seja com medo de ter alguma câmera escondida, de programas de TV a investigadores policiais, todo mundo se porta de um jeito misè en scène; ou seja, meio que posando para uma suposta câmera, existente ou não...
Semana passada, quando estava em Florianópolis-SC, no curso de formação em Linux Educacional, etapa regional para discutir a aplicação do curso Tecnologias na Educação: ensinando e aprendendo com as TICs, promovido pelo Proinfo/MEC, tive como companheiro de quarto o colega Eoil Jr., do NTE de Passo Fundo (RS), e editor do blog Severinoooooo (que me serve de referência na questão Linux), que já tinha conhecido na formação de Brasília-DF (junho/2008). Um dia, no café da manhã no hotel, vendo um novo reality show, envolvendo cozinheiros, ficamos observando os detalhes do programa. Ao contrário do BBB, em que numa casa existem câmeras espalhadas por tudo, neste novo show de realidade ao que indica, pelo movimentos bruscos da câmera, há um câmera-man ao lado dos participantes, acompanhando suas conversas, deslocando o foco da mesma de acordo com as falas de cada um... Num dos momentos houve até uma pequena discussão entre os participantes, e a lente não parou de oscilar entre a direita e a esquerda... Comentando com Júnior, disse a ele que achava curioso esse tipo de programa, pois aprendi que quando se tem a consciência de estar sendo observado, não se consegue agir naturalmente. Fica-se travado, medindo os gestos e as palavras. E mesmo o ator mais desenvolto, num palco segue as devidas marcações para não perder o tempo do diálogo e a seqüência das cenas... E, no entanto, os cozinheiros, com um câmera bem próxima, não tiveram o instinto natural de olhar para o lado, que é um movimento mecânico que o ser humano faz ao ver alguma movimentação ao seu redor. Curioso. Das duas hipóteses, uma: ou os participantes, quando ficam confinados recebem alguma espécie de doutrinação ou até mesmo lavagem cerebral, o que acho improvável (mais para teoria da conspiração); ou eles são ótimos atores, pois conseguem se concentrar e não perder o foco, quando até mesmo o câmera se perde no calor das discussões. Isto é incrível, Sílvio!, imitando o célebre Lombardi (que nenhuma câmera, que eu saiba, flagrou o rosto até hoje)!
Naquela mesma noite, no quarto do hotel, assistindo TV, eu e Júnior voltamos ao acaso a comentar sobre esses programas de Reality Show, e a falar sobre dois filmes que tratam desse tema, só que de pontos de vista diversos.
Um deles O Show de Truman, em que a personagem interpretada por Jim Carrey, desde criança é acompanhada por um programa de TV, em que milhões de pessoas assistem sua vida e apenas o próprio Truman não tem consciência que tudo é fantasia, até mesmo sua esposa, parentes, amigos e tudo mais... Todos atores interpretando papéis, menos ele, até o dia que o rapaz começa a desconfiar... E aí, só assitindo ao filme, que é ótimo... E muitas pessoas, no mundo real, não têm essa percepção que Truman teve...
O outro filme chama-se EdTV, em que ocorre justamente o contrário: a personagem interpretada pelo ator Matthew McConaughey sabe que está sendo filmado e usa isso em seu favor... Outro filme que merece ser visto e revisto...
Entre a fantasia e a realidade estamos nós... Alguns políticos, atualmente, diante da devassa feita pela Polícia Federal e alguns procuradores, temendo até o confessionário religioso... Outros, acreditando que podem ser decobertos por algum caça-talentos, e posando em tudo que é festa para ver se alguém o(a) descobre... Jogadores de futebol atuam para a tela mais que para seu clube. Usain Bolt, o homem mais veloz do mundo, medalha de ouro nos 100 metrso, na Olimpíada de Pequim, próximo da linha de chegada, ao invés de baixar a cabeça e tentar diminuir o record mundial que ele pulverizou, vira-se para o público e para as câmeras, batendo no peito, e só faltando dizer: Eu sou O Cara! Ou coisa pior! Atuar, desde que a TV se incorporou ao cotidiano e imaginário popular, é sinônimo de mostrar a todos o que não somos, mas desejamos que todos acreditem que seja a nossa realidade...
Quando se têm a consciência de que estamos sendo observados, filmados, fotografados, analisados, somos tudo, menos naturais e reais...
Mas, apesar disso tudo, cabe lembrar outra máxima, dessa feita de Aparício Torelly, humorista mais conhecido pelo nome artístico de Barão de Itararé (alusão a uma batalha que não aconteceu e a um título nobiliárquico autoconcedido...), que dizia: "Só por que você é paranóico, isso não quer dizer que você não esteja sendo seguido". Para quem sonha com eleição e acorda tendo pesadelos com CPIs é um lembrete muito atual e real... Risos... Desliguemos, então, a TV e as câmeras escondidas e sejamos mais nós mesmos...
Observação: Imagens acima, esculturas gigantes de Ron Mueck, escultor australiano considerado hiper-realista, e extraída de endereço abaixo:
gallery/2005/12/29/GA2005122900888_index_frames.htm?startat=1

2 Comments:

Blogger Robson Freire said...

Olá amigo Zé Roig

É hoje realmente temos essa condição de estarmos sendo sempre filmados, por câmeras de segurança, por celulares, etc
Temos a já famosa "síndrome do BBB" e seus filhotes no padrão reality show.

Ficou faltando citar no seu texto o clássico 1984 de George Orwell.
Outra dica interessante é o filme "A Vida dos Outros" de Florian Henkel von Donnersmark.

Em termos de paranóia de vigilância, o filme rivaliza com o Big Brother (não daquela picaretagem da TV, mas da obra de George Orwell). Só que o filme de Florian Henkel von Donnersmark é retrato de realidade política recente e não uma invenção ficcional. O filme se passa na Alemanha Oriental, antes da reunificação, e mostra como a polícia política, a Stasi, vigiava de perto da vida dos cidadãos.

Por sua força, ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2007, entre uma fieira de outros prêmios, como o de melhor filme europeu de 2006. A história é muito atual, em que pese se passar num regime comunista, forma de governo em desuso em quase todo o mundo após a queda do muro de Berlim, em 89, e o fim da União Soviética, em 91. É que ‘A Vida dos Outros’ fala, em especial, das liberdades individuais e como, de uma forma ou de outra, elas entram em choque com o Estado controlador.

Na história, verídica ao que se diz, um agente secreto é incumbido de seguir as atividades de um grupo de artistas, suspeitos de desvios ideológicos e contatos ilegais com a parte ocidental da Alemanha. Quanto mais vigia, mais o policial vai se fascinando com o tipo de vida daquelas pessoas. Mas o que interessa é que o filme, como cinema, é bom demais. Tem grandes atuações, suspense, lirismo - e um belo gesto de desprendimento pessoal.

Filme para pensar e se emocionar, o que é a melhor combinação para o cinema.

Outra dica legal é o programa que passa no Multishow chamado Retrato Celular. Alias filmes feitos com o uso de telefones celulares deixaram a fase de engatinhar e a marginalidade para conquistar a maioridade e espaços mais prestigiosos como o conceituado Pocket Films.

Abraços e Parabéns

Abraços

Obs.: Vou colocar o tema lá no Caldeirão de Idéias.

13:40  
Blogger José Antonio Klaes Roig said...

Oi, Robson, não conhecia esse filme que me indicasses, vou tentar localizar por aqui. è que 1984 já comentei tanto que já passou batido. kkkkk
Depois que ver comento. Um abração, Zé.

20:47  

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