terça-feira, maio 26, 2009

O Fenômeno + Susan Boyle = ao fenômeno Boyle/Potts (a sociedade do espetáculo?)


Fonte: http://futibabrasileiro.blogspot.com


Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=xRbYtxHayXo

Susan Boyle Versão Completa Legendado PT BR (ano 2009)


Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=SF7yuRylYd0
Paul Potts - Nessun Dorma - Legendado (ano 2007)

Antes que me perguntem, eu mesmo me fiz esta pergunta: O que Ronaldo Nazário, vulgo o Fenômeno, e a cantora Susan Boyle têm em comum, além do fato de terem sido um dia pessoas comuns e hoje atingiram ao mega-hiper-superestrelato?
Meu eu-lírico e crítico que estavam direcionados para a dissertação de mestrado em letras, com seu prazo se afunilando cada vez mais, ontem (25/5), no intervalo para o almoço deparou-se com a imagem, agora recauchutada, de Boyle na TV, e ai meu eu digital (e blogueiro) começou a entrecruzar instantaneamente as linhas de raciocínio para comentar neste espaço virtual sobre esse curioso "fenômeno", elevado e replicado pelos meios de comunicação de massa, primeiro pelo You Tube, depois por e-mails, jornais, TVs, rádios, etc.
Sob pena de a minha consciência inquisidora não me deixar em paz, caso silenciasse, tive que elaborar esta publicação para o blog Letra Viva, a respeito do assunto.
Pois bem, diz o dicionário digital Michaelis que Fenômeno entende-se por: "s. m. 1. Toda modificação que se processa nos corpos pela ação de agentes físicos ou químicos. 2. Tudo o que pode ser percebido pelos sentidos ou pela consciência. 3. Fato de natureza moral ou social. 4. Maravilha. 5. Pessoa ou coisa que tem algo de anormal ou extraordinário."
Tecnicamente, o talento natural que Ronaldo Nazário e Susan Boyle possuem é fenomenal e indiscutível. Ele, com a bola entre os pés faz magia, ela com um microfone à boca eleva o canto às alturas, tem uma voz angelical.
Ambos vieram de classes sociais modestas, pessoas simples (não são modelos de beleza) e foram descobertas e atingiram o estrelato e a fama de forma meteórica. Ronaldo, um fenômeno há mais tempo que Boyle, é multimilionário.
Susan Boyle, que virou mania mundial, após participar pela primeira vez do concurso de calouros do Britain's Got Talent, mudou radicalmente a sua vida, inclusive o visual, atendendo aos apelos de marketing. Vejam o link acima, de sua primeira participação no programa.
Ronaldo é fenomenal por conta de seus dribles, jogadas, gols, maior artilheiro da História de Todas as Copas do Mundo... Mas o que torna mais impressionante, dando jus ao apelido de Fenômeno, é ter conseguido superar gravíssimas lesões (uma delas que chocou o mundo inteiro com um músculo, tendão ou coisa parecida que saltara sob a pele). Tido naqueles tempos como acabado para o futebol por muitos especialistas, por jogadores, jornalistas, comentaristas e comentaristas de resultado, ele voltou, e não só voltou a jogar bola como participou da Copa de 2002, sagrando-se campeão. Depois, já na Itália, outra contusão que o afastou dos gramados. Novamente um filme passou na cabeça de muita gente. Porém, ele, fenomenal como sempre, driblou a todos (parafraseando certo comercial da TV) e retornou ao esporte. E esta aí afrontando quem não acreditava em seu retornou... Eu, confesso que, como a maioria dos mortais, apesar de admirar ao atleta, era um tanto quando receoso de sua volta. Queimou a minha língua e de milhões sob a face da Terra. Sorte dele e do futebol...
Já Susan Boyle, com sua voz e jeito peculiares, encantou ao mundo e a mim também. Porém não me emocionou tanto como a maioria dos que viram milhões de vezes o vídeo (link acima no You Tube), quando de sua primeira apresentação.
Esperem! Deixem eu explicar primeiro...
Encantou-me, mas não me emocionou pois aquele fenômeno eu já conhecia pelo menos um ano antes, e não se chamava Susan Boyle e sim Paul Potts (vejam link lá em cima, bem abaixo do de Boyle).
Calma!!! Não estou falando de mudança de sexo e nada tão espetacular ou fenomenal para o notíciário das TVs repercutir por semanas e horas a fio...
Refiro-me a não ter sentido a mesma sensação proporcionada por Susan Boyle com sua apresentação, em um vídeo no mesmo show de calouros, com os mesmos jurados e talvez a mesma platéia, pois um ano antes (2008) assisti a outro calouro, chamado Paul Potts, um vendedor de celulares que tinha o sonho de ser cantor de ópera e cantar a ária Nessun Dorma, imortalizada pela voz de Luciano Pavarotti (vídeo de 2007, dois anos antes do de Susan). Vejam os dois links, de Boyle e Potts, vice-versa, tanto faz, para perceberem as semelhanças...
Susan tem uma voz e uma interpretação brihante, emocionou-me por isso e não como muitos, pela forma que deram ao espetáculo, de ter sido tratado com desdém por juri e platéia, pois esse filme eu já tinha visto antes, bem antes...
Foi minha colega de NTE, Janaina Martins quem me apresentou o vídeo de Paul Potts, o vendendor de celulares que tinha o sonho de ser cantor, e eu, confesso, à primeira vista pensei tratar-se de uma dessas inúmeras pegadinhas que assolam às TVs mundo afora. Fui à época preconceituoso, como todos, achando que aquele rapaz gordo, estrábido, fora dos padrões de beleza, deveria ser um dublador de Pavarotti em algum show desses de TV. E qual foi minha surpresa naquele momento (tal qual aconteceu tempos depois com Susan Boyle) que o rapaz era talentoso mesmo, e tinha uma voz maravilhosa. No vídeo, o mesmo juri faz a mesma cara de desdém. E ao final, a redenção de um ilustre desconhecido ungido ao estrelato. Por isso, e tão somente por isso que a sensação de dejá vú eu senti ao ver a performance de Boyle diante de um juri que portu-se do mesmo jeito que com Potts.
Ai o jovem ingênuo que eu fui (e que usou o vídeo de Potts como motivador de cursistas na formação em informática educativa) saiu para passear e o homem crítico, que sempre procura analisar o discurso das pessoas, tomou seu lugar.
Fiquei pensando e repensando. Um raio não cai duas vezes sobre o mesmo lugar, diz a crendice popular, mas o Fenômeno Nazário, por duas vezes surgiu das cinzas. Mas na questão de Boyle e Potts as semelhanças são fenomenais, e não apenas no talento natural para o canto que ambos demonstram e a empatia com o público, mas no fato de serem em tese "ilustres desconhecidos" do juri, desprovidos de beleza estética exigida pela TV atual. Mesmo sabendo-se que em televisão nada vai ao ar gratuitamente, que tudo passa por um produção, testes, e que quem apresenta um show deve no mínimo estar alertado do que poderá acontecer, dou o benefício da dúvida, de que o juri é mantido às escuras, justamente para produzir situações como essas (tipo, "sem querer querendo", usando jargão da personagem Chaves).
Duvido que se eu quisesse mostar algo na TV poderia fazer isso sem passar por algum tipo de triagem... E arcando com o risco dessa opinião nada fenomenal, de que o programa utilizou-se de uma receita de bolo que deu certo com Potts e foi ao ápice com Boyle para atingir os dividendos da audiência mundial, faço minha as palavras de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, que nos anos 1970/80 já dizia: "Na TV nada se cria, tudo se copia". Programas de calouros, reality shows, pegadinhas, videocassetadas, etc. são a prova disso... E hoje mais do que nunca a audiência, ou melhor, a briga pela audiência, é o que mais se leva em conta pra levar ao ar certo tido de espetáculo, nem sempre fenomenal...
Então, perdoem-me aqueles que ainda acredita em contos de fadas, de gatas borralheiras serem no fundo cinderelas, pois a vida real é mais seletiva, e na TV tudo que se vê tem uma segunda intenção... Há muitas vezes uma jogada de marketing, de driblar o cotidiano e a normalidade e propor o espetáculo, o fenomenal. No caso de Boyle, Potts e Ronaldo eles são de fato fenômenos naturais que a mídia amplifica...
Ronaldo em sua volta ao futebol, enquanto não fez o primeiro gol, que logicamente foi considerado o melhor da rodada, não teve sossego das câmeras e dos repórteres. No seu jogo de estreia teve um momento que parecia aquele filme-espetáculo "O dia em que a Terra parou", já que o jogo e o mundo televisivo parou quando a bola entrou, e naquele dia quase não teve mais espaço para a crise mundial e tudo mais nos noticiários...
Tudo isso veio de encontro a resenha que li e reli anteontem, de autoria de José Aloise Bahia, integrante do portal Arte e Literatura - Cronópios, sobre o livro de Guy Lebord => A Sociedade do Espetáculo...
Vejam fragmento do texto de José Aloise Bahia, a respeito do livro acima citado, que quis destacar neste post:
"Debord, enfaticamente, observa que esta imagem manipulada da realidade pelos meios de comunicação de massa faz o reino das emoções (raiva, felicidade, etc.), assim como a democracia, justiça, paz, ecologia e a solidariedade sejam apresentadas como espetáculos. Os meios de comunicação de massa criam a partir daí uma realidade própria para que a sociedade se solidarize e crie novos critérios de julgamento e justiça conforme os seus conceitos manipuladores.
Estas novas tecnologias no campo da informação intentam na capacidade de percepção dos indivíduos e dificultam a representação do mundo pelas atuais categorias mentais. A sociedade transforma-se numa Sociedade do Espetáculo, onde a contínua reprodução da cultura é feita pela proliferação de imagens e mensagens dos mais variados tipos. A conseqüência é uma vida contemporânea superexposta e invadida pelas imagens, operacionalizando um novo tipo de experiência humana, caracterizada por um modo de percepção, no qual é cada vez mais difícil separar a ficção da realidade. A mídia passa a atuar de maneira decisiva - assim analisa o professor e pensador Renato Janine Ribeiro nas crônicas do excepcional O Afeto Autoritário: televisão, ética e democracia (Ateliê Editorial, Cotia, SP, 2005) -, na invenção das modas e definição das agendas, pautas e temas do cotidiano, que norteiam todo o processo cultural e social relevantes. Sobre isto Debord atina, 'O conceito de espetáculo unifica e explica uma grande diversidade de fenômenos aparentes. Sua diversidade e contrastes são as aparências dessa aparência organizada socialmente, que deve ser reconhecida em sua verdade geral. Considerado de acordo com seus próprios termos, o espetáculo é a afirmação da aparência e a afirmação de toda a vida - isto é, social - como simples aparência. Mas a crítica que atinge a verdade do espetáculo o descobre como a negação visível da vida; como negação da vida que se tornou visível'.
O ambiente é o da manipulação, onde o homem acaba sendo governado por algo que ele próprio criou. Relembrando MacLuhan, 'Os homens criam as ferramentas, as ferramentas recriam os homens',(...)"
.

Ferramentas como a TV e a internet hoje recriam o homem a partir do próprio homem. Já dizia velha canção de que "o homem é o lobo do homem". É o fenômeno que mais adiante José Aloise Bahia aborda no tópico Total desinformação da sociedade:

"Uma conseqüência séria, segundo Debord, é a total desinformação da sociedade. Não a desinformação como negação da realidade, e sim um novo tipo de informação que contém uma certa parcela de verdade, a qual será usada de forma manipulatória. 'Em suma, a desinformação seria o mau uso da verdade'. E, o mundo da desinformação é o espaço onde já não existe mais o tempo necessário para qualquer verificação dos fatos.
Assim analisa Debord, 'Ao contrário do que seu conceito espetacular invertido afirma, a prática da desinformação só pode servir o Estado aqui e agora, sob a sua direção direta, ou por iniciativa dos que defendem os mesmos valores. De fato, a desinformação reside em toda a informação existente; e como seu caráter principal. Ela só é nomeada quando é preciso manter pela intimidação, a passividade. Quando a desinformação é nomeada, ela não existe. Quando existe, não é nomeada'.


Quando se mostra com amplitude o talento de Susan Boyle, mas não se comenta paralelamente ou simultaneamente sobre o de Paul Potts, que é tão talentoso e fenomenal como sua sucessora, a televisão e a mídia em geral está prestando um serviço de desinformação, dando a falsa impressão de primeira vez a algo que já não é original. É inegável o talento fenomenal de Boyle, mas é inadmissível não vincular sua participação no mesmo programa, com os mesmos jurados, a uma experiência semelhante, como demonstrei nesta publicação...
Recentemente participei de assembleia geral do CPERS - Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre - RS - Brasil, saindo depois em passeata pelas ruas do centro da cidade e a mídia pouco mostrou além de breves linhas e breves imagens. Para o grande público e a grande mídia tal situação parece não ter existido...
Mas, em contrapartida, o horário nobre da TV abre espaço cada vez maior a pessoas que nada têm a mostrar senão caras e bocas... Desinformação?
Certa vez, li o artigo de um jornalista, não me recordo o nome, dizendo que blogueiro não era jornalista. Evidentemente que não. Blogueiro é produtor de conteúdo informal, particular, sem dar ao que publica o mesmo tratamento jornalístico, até pelo fato de não ter a devida formação. Eu sou blogueiro educacional e uso o meu blog com intuito de refletir sobre a tecnologia e a educação, a arte e cultura, a história e a literatura pois são várias facetas de uma mesma pessoa: eu mesmo, logicamente.
Um blog pra mim é um ambiente virtual de interação coletiva. Blogueiro não é jornalista, assim como jornalista que escreve ou faz reportagens sobre educação não é professor. Utilizar certo meio não o torna um profissional da área... Senão, todo pintor de paredes seria artista plástico. Alguns até podem ser, mas não é a regra e sim a exceção...
Todavia, todos aqueles que utilizam ferramentas de informação, ou utilizam-se desse meio para falar de algo, devem ter a consciência de que devem prestar um serviço a informação e não de desinformação... E que devem arcar com as próprias ideias e palavras, pois na internet tudo toma uma dimensão maior, já que as ideias em forma de bytes vagam pelo labirinto da informação...
Quando se valoriza algo ao extremo e nega-se a fatos similares a devida divulgação, de certa forma, ao meu ver, presta-se um serviço à desinformação. No caso específico deste post, o que faço é uma reflexão crítica sobre os costumes da sociedade em que vivo e sobre a qual encontro a matéria-prima para minha prática educacional e social... Por trás de todo fenômeno natural como Nazário, Boyle e Potts há de forma visível ou subliminar interesses maiores, alguns deles causando fenômenos artificiais, seja no mundo real como no virtual...

Observação 1: Casualmente, depois de escrever esse post, folheando a revista Veja de 29/abril/2009, na parte Arte e Cultura, eis que vejo a foto de Susan Boyle e na página ao lado, na mesma matéria, a de Simon Cowell, um dos jurados do American Idol (dos EUA) e do Britain's Got Talent (da Grã-Bretanha), e descubro que além de Cowell ganhar cerca de 36 milhões de dólares ao ano nesses programas, ainda é o empresário de Susan Boyle. A Sociedade do Espetáculo fica melhor evidenciada nesses detalhes que nem sempre são mostrados no conjunto da obra...
Observação 2: Para saber mais detalhes da trajetória de Susan Boyle, acesse o endereço abaixo
http://br.noticias.yahoo.com/s/afp/090421/entretenimento/
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